A professora. Os alunos. (N)a língua de Camões

Participar num projecto de voluntariado, num país que não o de origem, pode à partida apresentar uma dificuldade: como comunicar? O Pál fala húngaro, a Laura espanhol e a Annika alemão. Como poderiam conversar? Sim, em inglês. Falam-no, é verdade. Mas, como falariam eles com os clientes da APCC que não dominam o inglês, o húngaro, o espanhol ou o alemão?
Chegaram sabedores do “Olá”, do “Bom dia”, do “Boa tarde” e do “Boa noite”… Mas, era preciso mais. Muito mais. Vera Rosário é a professora de português da APCC que, desde o início, os tem ensinado a caminhar pela língua portuguesa. Além dos tempos verbais, palavras e expressões, tem-lhes mostrado muito mais deste país de escritores e poetas.
Aqui fica a experiência destes quatro. Primeiro a professora Vera. Depois a Laura. Segue-se o Pál e, por fim, a Annika. Boa leitura!
Professora Vera Rosário

“A minha pátria é a língua portuguesa” dizia Pessoa desconhecendo que no futuro seríamos todos cidadãos do mundo abertos à particularidade de cada língua e de cada cultura. De facto, absorvermos diariamente feitos e acontecimentos vindos dos quatro cantos do mundo que nos chegam pela televisão ou internet. Mas é nas aulas de Português Língua Não Materna que esta partilha ganha mais visibilidade e autenticidade.Há já três anos que me dedico ao ensino da Língua Portuguesa aos voluntários estrangeiros e cada grupo é singular quer pelas nacionalidades quer pelas personalidades.Este grupo surpreendeu-me desde o início mostrando uma vontade inequívoca de aprender a tão difícil língua de Camões. As aulas cedo se tornaram repletas de energia, dinamismo, partilha e conhecimento. E hoje, ao fim de três meses, falam, escrevem e compreendem a Língua Portuguesa quase na perfeição. Pedem para explorar a gramática, já leram obras integrais de Sophia de Mello Breyner Andresen, apreendem vocabulário que se esforçam por usar, cantam o Encosta-te a mim do Jorge Palma…
Da Geografia à História, das singularidades do povo português à gastronomia, usos e costumes, da literatura à gramática, as aulas são verdadeiros espaços de partilha. Há lugar para Camões, para a pronominalização, para a lenda de Pedro e Inês, para o conjuntivo, as preposições ou Fernando Pessoa e seus heterónimos. Enfim, cada um deles é especial. As gargalhadas sinceras e autênticas da Annika, a sede de conhecimento do Pàl, o sentido de humor da Laura. As nossas aulas são assim. Aprendemos de forma divertida e funcionamos em grupo.
A nossa relação estende-se para além das aulas. E eu sinto –me uma professora orgulhosa quando um deles me diz, por exemplo: “Vera, hoje ao pequeno-almoço estávamos a conversar e eu utilizei a expressão vale a pena!”.

Efectivamente, vale a pena!

Laura


Que dizer das aulas de português?
Para mim elas são um momento de evasão, de risos, de aprendizagem, de conhecimento da História, da Geografia, Fernando Pessoa, TPC, poder saber mais da cultura através das  frases como  “Em cima do joelho”, “É canja” ou “Ficar tudo em águas de bacalhau”, entre outras. Também é ouvir “Encosta-te a mim” do Jorge Palma, é tomar café depois do trabalho bem feito, são fotocópias, o Duarte, vozes estridentes, falar de comida, deliciarmo-nos, tudo é possível e mais fácil com ela, Vera, que prova que se pode desfrutar do trabalho e que qualquer lugar é bom para encontrar um amigo.
É por isto que posso dizer que as aulas são imbatíveis, que não são “esquisitas”, já aprendi a diferença.
Olha, parece que funciona!



Pál




Na primeira aula depois da introdução, a Professora anunciou:
- Olhem, alunos! Esta é a última vez que eu falo Inglês. Está bem?
- Yes.
Naquele momento ainda não acreditava mas a mudança aconteceu despercebida e agora apenas conversamos em português. Tomamos café, jantamos e debatemos em português e às vezes sonhamos em português também. Obrigado Vera! Espero pelo próximo TPC.





Annika


Era uma vez, há mais ou menos 3 meses atrás quando uma espanhola, um húngaro, uma alemã e uma portuguesa se encontraram para aprender português. Eles sabiam que aprender uma língua nova era muito difícil e precisavam de muito tempo, vontade, diligência e prática. Portanto, aprender uma nova língua talvez fosse trabalhoso.
Mas cuidado, o conjuntivo na frase anterior tem um sentido!
Nós aprendemos: Conjuntivo é usado para as frases irreais...
Então, eu penso que uma descrição das aulas de português explicará a necessidade do conjuntivo neste caso.
Às dez de manhã a espanhola, o húngaro, a alemã e a portuguesa estão a sentar-se na sala de baixo queixando-se do calor e do sono. Depois de 5 minutos, quando todos sabiam que os outros também estavam cansados e com calor, eles começaram a falar sobre o fim-de-semana, e falaram e falaram até ao fim da aula.
Também o café juntos depois da aula não pode faltar.
Quando a aula é à sexta em vez de segunda o tema da conversa são os planos para o fim de semana. Mas a preparação para a viagem à Hungria é também possível. E quando eles não querem falar podem ouvir música portuguesa.
Mas façam o que fizerem eles estão sempre a rir.
Agora talvez seja claro por que o conjuntivo foi necessário e aprender português com estas aulas não é trabalho.
Além disso os três alunos notaram que o português deles melhorou muito como por milagre.